Convidei Carla Tomé, educadora de infância e instrutora Baby Signs® para uma entrevista exclusiva ao grupo de profissionais de 1ª infância que fizeram workshop Baby Signs comigo.

Essa entrevista foi tão boa e passou mensagens tão importantes que decidi transcrevê-la e partilhar com o mundo, na sua maioria, ficando na íntegra apenas para os membros do dito grupo.

Passo a citar parte maioritária da minha entrevista a Carla Tomé:

Eu – Há quantos anos és educadora de infância?

Carla – O meu percurso na educação começa muito antes de ser educadora…comecei em 2005 como auxiliar de ação educativa.

Como educadora comecei a exercer em 2011, depois de fazer o mestrado.

Para mim, tem sido um caminho muito bom porque eu acredito e sinto que é a minha vocação e ainda mais depois de conhecer o Baby Signs, que acho que era aquilo que me faltava para que eu me sentisse completa.

Eu – Tão bom! E instrutora..?

Carla – Desde 2018, se não estou em erro. Eu não sou boa com datas porque antes de ser instrutora Baby Signs, eu já aplicava em sala. Já sinto que está entranhado.

Eu – Foste para uma creche que já aplicava o Programa antes de seres instrutora, certo?

Carla – Sim, exactamente. Quando eu entrei nem por isso, mas depois fizeram uma reactualização com a equipa educativa e começou-se a aplicar. E então foi maravilhoso!

Conheci um mundo que eu desconhecia e que fez toda a diferença.

Eu – Qual foi o teu primeiro impacto antes de conheceres e perceberes o Programa? Pensaste “Ah, que fixe!” ou “Hum… o que será?”

Carla – Olha, eu sou um bocadinho cética. Quando eu vi um catrapázio na parede, perguntei “O que é isto?”, ao qual me responderam “Ah, é um programa para ensinar gestos às crianças” e a minha resposta foi “Olha, modernices! Olha agora…”. Disseram “Ah, mas é giro. É interessante.” Esta foi a minha primeira reação. É aquela que a maior parte das pessoas tem: “Gestos para crianças? Mas o objetivo é falar…”

Eu – A principal dúvida da maioria é mesmo isso: “Queremos que fale e estamos a ensinar gestos? Vai fazer gestos, não vai falar.” É o primeiro pensamento, julgo eu.

Carla – E completamente errado!

Eu – Quando entraste para essa creche, estavas numa sala que podias aplicar o Programa ou só visualizavas?

Carla – Não, no primeiro ano nem visualizava porque no início só via o papel na parede e não se fazia.

Quando se fez a reciclagem, eu na altura estava na sala de berçário, o que foi muito giro. E depois passei para a sala de um ano com o grupo do berçário, o que deu uma continuidade mais gira. Porque tu vês uma evolução.

Eu – O problema muitas vezes, julgo eu, é a pessoa fazer a formação mas não estar numa sala que pode aplicar logo.

Carla – Sim. Isso depois cabe às instituições acreditarem naquele Programa e investirem nele.

Por exemplo, no primeiro ano que apliquei aqui na Escolinha dos Pequenitos, que é onde trabalho, eu estava no jardim de infância. Mas tinha um horário de actividades extracurriculares e nesse horário ia à sala dos bebés, ao berçário e à sala de um ano, dar o Baby Signs.

Eu – Lá está. É o acreditar.

Carla – É. É dar a oportunidade. É o investir. Cabe-nos a nós também , educadoras, mostrar à outra parte que vale a pena.

Eu – Sim. É como dizes: acreditar e investir. E quando começaste a aplicar o Programa, qual foi a primeira ou principal diferença que notaste?

Carla – Quando comecei a aplicar, a diferença eu notei foi a vontade de comunicar daquele grupo era imensa. Eles queriam conversar sobre tudo. Nem que fosse dizer que queriam mais papa ou que queriam ir brincar.

Houve um episódio em que estava a contar a história e lembro-me do Salvador, que não queria ouvir a história nem por nada. Queria ir brincar. E enquanto eu contava a história, ele estava sempre a gesticular “brincar”. Era muito giro!

Eles tinham um mundo inteiro que eu ainda não conhecia.

A partir do uso dos gestos, eu percebi a imensa vontade e capacidade que eles tinham de comunicar e a partir daí as birras…eh pah, maravilhoso! As birras, o gritar por tudo e por nada, o chamar a atenção…acabou.

Eu – Aconteceu isso porque já tinham outra forma de se manifestar, não é?

Carla – Exatamente. O que notei ainda mais e que para mim fez toda a diferença, que é única e especial deste Programa… é que para além da comunicação, é o crescimento da autoestima da criança.

O saber que é compreendido, que se consegue fazer compreender dá-lhes um crescimento maravilhoso! E eles crescem a olhos vistos. É o que mais adoro neste Programa!

Eu – Tão bom! E a confiança no adulto, não é? Nota-se também essa diferença.

Carla – A confiança, a segurança… quando estão mais tristes e nós perguntamos pela mamã e exemplificamos que ela já vem…eles têm uma noção completamente diferente porque tu dizes que a mamã já vem e fazes os gestos. Reconhecem os gestos de mãe e porta que vão sair, não é?

No momento em que aconchegas aquela criança, lhe dás aquela segurança… eles ganham autonomia para ir à vida deles, nem que seja por 10 minutos.

Daí a 10 minutos, voltam a fazer-te a mesma pergunta, mas durante aquele tempo, foram satisfeitos e seguros. Foram libertados, digamos assim, para ir explorar, crescer.

Eu – Li um artigo que, resumidamente, era um educador de infância que aconselhava os pais a não fazer uma coisa que muitos fazem, que é: “Vou só ali ao carro buscar (qualquer coisa: o chapéu, a chave, seja o que for), já volto.” Para os enganar do adeus, da despedida.

Carla – Nem é correto fazê-lo aquela criança. Vai ficar à espera que volte e quando voltar não tem o chapéu ou seja o que for.

Não, não sou apologista. As minhas crianças dizem adeus. Podem ficar a chorar, mas são consoladas e é-lhes explicado que vão brincar, que depois de dormirem e comer, a mãe volta. A mãe ou o pai.

Eu – Com o Baby Signs consegues ajudar muito nisso porque tens os gestos para essas situações que fazem a diferença na transmissão da mensagem.

Mesmo os mais pequenos vão associando melhor, à medida que vais repetindo.

Carla – Sim. Sabemos que a memória visual é melhor que a nossa memória auditiva, não é?

Eu – É verdade. No início, não ficaste na dúvida, apesar de teres feito formação, por onde começar?

Carla – Olha, por acaso, não. Eu tive essa sorte porque já tinha assistido à Sabla a fazer as sessões Baby Signs nos meus grupos. Mas digo-te que foi muito intuitivo porque eu já tinha conhecimento daquilo.

Eu – E lembraste de alguma situação, algum testemunho, que queiras dar de alguma criança em específico que tenhas notado diferenças com a aplicação do Programa Baby Signs?

 

Carla – Sim. Olha, tenho duas por aspetos diferentes.

Tenho uma, que era uma menina super autónoma, super espevitada, super exploradora… mas gritava mesmo por tudo e por nada. Tudo o que ela queria, a forma de se exprimir era gritar e a diferença foi do dia para a noite.

Aquela pequena princesa, em vez de passar o tempo a gritar, ela fazia fazia o gesto de tudo o que queria, nem para me chamar a atenção ela já gritava, puxava pelo bibe e fazia o gesto daquilo que queria. Fazia-se entender. Foi uma diferença abismal!

 

Depois a outra parte, que era uma das crianças mais velhinhas, acho que já tinha 2 anos na altura, mas ainda estava um bocadinho a precisar de um estímulo e ele acabou por frequentar o Programa Baby Signs. Achámos que era importante, a mãe também e ele fez.

Aquela criança, era a criança tímida da sala, a criança que ficava sempre no canto se não o chamássemos.

Depois de fazer o Programa Baby Signs, no final dos primeiros 5 temas que fez…bem!…nós chegámos a Janeiro/ Fevereiro e eu fiquei de boca aberta.

Aquela criança deixou de estar no grupo para ser… sabes o quê? O líder do grupo!

Eu – Uau! Muito bom!

Carla – Ele partilhava, falava…ele que, imagina… ele queria pão, queria mais pão, mas não pedia. Ficava no cantinho… se lhe oferecesse, ele comia. Mas pedir nunca.

Olha, passou a gesticular “mais” e “mais”…era “pão”…

Passou a pedir para brincar, a chamar os outros para brincar, a tirar os livros aos outros, a dar os livros aos outros… a ter uma interação maravilhosa! Para mim, foi maravilhoso!

Eu – Fantástico! Fantástico mesmo!

Lá está. Parece que não faz diferença, mas faz muita diferença, não é?

Carla – Faz e como podes ver, Eliane, são crianças diferentes com necessidades diferentes, não é? E que o Programa conseguiu ajudar.

Eu – Conseguiu chegar a elas da maneira mais assertiva, digamos assim.

Carla – Sim. Eu defendo que a comunicação é a base de tudo. Importa em qualquer relação, seja adulto – criança, seja criança-criança. E aqui, haver uma boa comunicação estabelece partes imprescindíveis ao desenvolvimento de qualquer criança, seja o nível qual ele for. Cognitivo, motor, linguístico… seja qual for.

Tu – Tu chegaste à creche antes de haver sessões Baby Signs. Podes dizer qual ou quais as diferenças que notaste enquanto creche só com certificação e creche com certificação + sessões?

Carla – A diferença é assim… quando tu tens o Programa implementado ou, pelo menos, quando está a funcionar naquela escola, mas que não está a equipa toda em sintonia, não está toda a equipa preparada, não estão também os pais preparados para este Programa, o Programa não se desenvolve da melhor forma, nem as crianças e familiares usufruirão da melhor forma. Acaba por ser um de vez em quando. Vamos fazendo uns gestos e pronto.

Eu – Quando alguém se lembra…

Carla – Sim e mesmo as crianças fazem um outro, uns 5 ou 6, que são os mais usuais, aqueles dos momentos de rotina.

Quando tens um Programa implementado numa creche certificada e workshop para pais, para equipa educativa, seja educadores, sejam auxiliares, sejam simplesmente a coordenação há um crescimento do Programa muito grande porque toda a gente fala a mesma língua.

Eu vi uma diferença muito grande, muito substancial.

Eu – Queres deixar alguma mensagem para outras educadoras e auxiliares que já fizeram a formação, mas que por alguma razão ainda não aplicam o Programa? 

Carla – Olha, é assim… Primeiro, medos toda a gente tem. Desafiem-se! Vão à procura. Peçam ajuda. Nós somos um grupo de profissionais que estamos cá é para ajudar.

Desafiem-se! Superem-se! Porque este Programa vale realmente a pena. Por vocês, educadores, porque vão ter um crescimento profissional muito grande e um crescimento relacional com os grupos de crianças maravilhoso.

Vocês vão ter um mundo na sala que não conheciam e que vos vai facilitar imenso e criar laços inesquecíveis.

Aquilo que vão ter mais medo e mais nervosismo acho que é dos workshops com pais porque estamos a ser observados. Falem com o coração.

Se estão neste Programa é porque acreditaram nele  e quando acreditamos realmente numa coisa, ele dá certo. E este Programa tem tudo para dar certo. Tudo!

Eu posso dizê-lo por mim.

E os educadores e educadoras que não estão na sala certa, façam como eu: conversem com a vossa entidade patronal, com as vossas escolas.

Eu estava em jardim de infância e ia meia hora num dia e meia hora noutro fazer o Programa Baby Signs em salas de creche.

A conversar, a comunicar, é que nos entendemos.

Eu – Bonita mensagem, Carla. Obrigada. Obrigada por teres aceite o convite.

Carla – Obrigada eu. E façam muitas crianças felizes. E sejam vocês felizes! Porque com este Programa é muito mais fácil.

Eu – Claro que sim! Nós fazendo as crianças felizes também ficamos mais felizes.


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